De onde vem a palavra “coral”?

Escrito por Carla Elliff, Traduzido por Ana Carolina Grillo, Revisão: Gustavo Shintate

Sempre gostei de saber sobre a origem das palavras e seus significados, isso me ajuda a lembrar das coisas e fazer conexões. Idiomas são uma ferramenta poderosa e estão muito ligados a um sentido de pertencimento. De fato, podem moldar a maneira que pensamos.

Aproveitando que o contexto da cultura oceânica está em alta, me peguei pensando mais sobre a etimologia das palavras com que trabalho diariamente. Oceano, ciência, marinho, praia, ecossistema… cada uma vem de algum lugar geográfico, e de alguma época. Enquanto “oceano” data aproximadamente do ano 1300, “ecossistema” foi cunhado somente em 1935. Isso nos conta muito sobre como as pessoas enxergavam e compreendiam o mundo – e apenas considerando as línguas modernas!

 

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Fig. 1 Uma bela representação de como os grupos de idiomas estão conectados, por Minna Sundberg.

Bom, e nossos adorados corais?

 De acordo com o Dicionário Online de Etimologia, coral é o “nome geral dado a esqueletos calcários duros, excretados por determinados pólipos marinhos, c. 1300, do francês antigo coral (12c., francês moderno corail), do latim corallium, do grego korallion”. Esta é a história moderna da palavra e se aplica diretamente ao nosso uso do coral nas ciências marinhas. Mas, viajando ainda mais ao passado, o dicionário aponta que a palavra é “provavelmente de origem semita (compare ao hebreu goral “pequeno seixo”, árabe garal “pequena pedra”).”

Aqui é quando começa a ficar interessante… Primeiro, parece que aquela antiga ideia equivocada de que corais são pedras ao invés de organismos vivos é, de fato, muito antiga! Segundo, se sua origem é semita, significa que começou a ser usada na região da Ásia ocidental, norte e nordeste da África e Malta. Sobre isso, o dicionário também diz: “Originalmente especialmente a variedade de vermelho encontrado no Mediterrâneo, utilizado ornamentalmente, logo “vermelho, a cor (vermelha) do coral” (meio do séc. 15.).”

Então, os primeiros corais chamados de “pequenos seixos” ou “pequenas pedras” foram os corais vermelhos (gênero Corallium) do Mediterrâneo. Diferentes de outros corais, as espécies de Corallium continuam vermelhas depois que morrem devido à presença de pigmentos carotenóides depositados em seu esqueleto. Ou, talvez, seja devido ao sangue que correu da cabeça da Medusa ao rio depois que Perseu decapitou a monstruosa Górgona (sim, como em gorgônias, um gênero de corais moles!), que tornou o verde do mar em vermelho coral… De qualquer forma, por sua característica única, o vermelho coral também é chamado de precioso coral, já que sua tonalidade faz o material muito atrativo para a produção de jóias e amuletos.

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Fig. 2 A Górgona Medusa (pintada por Caravaggio) e uma Gorgônia, coral mole (fotografia por prilfish).

O amplo uso do vermelho coral para fins ornamentais também relacionou o nome a uma variedade de tons de coloração laranja-avermelhado. E é por isso que agora faz total sentido para mim que “A cobra-coral (1760) é assim chamada por suas listras vermelhas”, como também descrito no Dicionário Online de Etimologia.

Esta coloração antiga ainda está muito presente nos dias atuais. Tanto que “Coral Vivo” foi o nome da Cor do Ano de 2019 da PANTONE. Sua explicação e interpretação do que esta cor simboliza na sociedade é incrível! Fiquei tentada a copiar a descrição completa aqui, mas me contive com a seguinte frase: “No centro do nosso ecossistema naturalmente vívido e cromático, o Coral Vivo da PANTONE evoca como os recifes de coral fornecem abrigo para uma diversidade caleidoscópica de cores”. Adoro a ideia de tantas pessoas estarem conectadas ao oceano (mesmo sem saberem) devido a esta cor.

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Fig.3 A Cor do Ano de 2019 da PANTONE: Coral Vivo, um enorme negócio para a indústria do design!

Seguindo a lista de outras coisas que são chamadas de coral mas não são nossos amigos cnidários são as ovas de lagostas (mais comum fora do Brasil). Este nome se aplica principalmente quando falamos de ovas de lagostas como uma iguaria, por causa de sua cor.

E se você quiser alongar ainda mais este assunto, Coral também é um nome pessoal em vários países que falam inglês e espanhol. De acordo com Wikipédia, foi o 943º nome mais popular nos Estados Unidos de 1900-1909, o 977º em 1991, e o 988º em 1992. A versão francesa é inclusive o nome da protagonista de um de meus livros favoritos: Coraline, por Neil Gaiman (e se você lesse o livro ou assistisse ao filme, se lembraria que seu nome é uma frustração para a personagem – “É Coraline, não Caroline!”).

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Fig. 4 Frase memorável de Coraline, por Neil Gaiman.

De pólipo marinho da mitologia grega, à cor do ano da PANTONE, à literatura moderna… corais estão enraizados em nossa cultura de maneiras que nem imaginamos. Fico imaginando de onde vem a palavra recife… mas terá que esperar até a próxima vez.

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