By Orlando Timmerman
Translated by Ana Carolina Grillo
Reviewed by Jessica Bleuel
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Corais: Observadores habituais de estrelas
O mundo natural se move em um ritmo cósmico. Das marés cheias que seguem a gravidade da lua aos coros do som das aves saudando o nascer do sol, a vida na Terra é intimamente ligada ao movimento planetário. Os corais, ao que parece, não são exceção. Uma equipe de cientistas recentemente aprofundou nosso entendimento sobre como os corais sincronizam sua desova, investigando os papéis do luar e da escuridão (1). A desova dos corais é essencial para a recuperação dos recifes após distúrbios e possui implicações potenciais na propagação e transplante de larvas, e por isso essas percepções são cruciais para os esforços contínuos de conservação de nossos valiosos ecossistemas recifais (2).
Uma tempestade mítica de neve submersa
A desova de corais – o processo pelo qual os corais liberam bilhões de células de espermatozóides e óvulos, ou gametas – soa quase mítica. Uma vez por ano, em um evento frequentemente comparado a uma tempestade de neve submersa, cada espécie de colônias de corais coordena sua desova em um período de algumas noites, geralmente próximo à lua cheia. Esta sincronia maximiza as chances de uma fertilização bem-sucedida entre indivíduos da mesma espécie. Mas, como o fundo do mar é um pouco molhado demais para ter um calendário, como eles conseguem chegar nesse momento tão preciso?

Uma desova de coral na Grande Barreira de Corais. Crédito da imagem: Gabriel Guzman via Australian Geographic.
Como os corais marcam o tempo?
Pesquisas anteriores mostraram que variações no luar desempenham um papel importante, desencadeando processos genéticos e fisiológicos que levam à maturação e liberação de gametas (3). No entanto, devido à enorme variação em outras condições no ambiente complexo e confuso dos oceanos rasos, a história completa é bem mais complicada. De fato, os corais são exigentes e espécie-específicos em seus sinais de desova. Por exemplo, uma espécie particular de Acropora – o coral ramificado em forma de dedo que é indiscutivelmente o símbolo dos recifes do Indo-Pacífico – é um exemplo de coral que contraria a tendência, com diferentes colônias escolhendo meses diferentes para desovar, levando a um evento de “desova dividida” (4). Na tentativa de desvendar a complexa teia de influências ambientais, uma equipe de pesquisa se propôs a investigar se a desova dessa espécie era uma resposta ao próprio luar ou ao período de escuridão após o pôr do sol.
Para investigar isso, fragmentos de corais foram cuidadosamente removidos de suas colônias-mãe e levados até tanques com condições controladas, onde os pesquisadores monitoraram sua saúde antes de realocá-los para um sítio experimental próximo ao Palau International Coral Reef Center. Isso permitiu que os cientistas de Newcastle tivessem melhor acesso aos fragmentos de corais ao longo do estudo.
Para testar o papel da exposição à luz, pesquisadores desenvolveram uma solução simples mas elegante: capuzes em forma de pirâmides feitos sob medida. Depois de um tempo de aclimatação em seu novo lar, os corais foram cobertos ao pôr do sol. Todas as noites, por um período antes e depois da lua cheia, alguns dos fragmentos receberam um capuz completamente opaco – como uma máscara de olhos – que bloqueava completamente o luar. Alguns foram mantidos sob capuzes a noite toda, enquanto outros puderam ver o céu noturno por um período. Corais adicionais receberam capuzes transparentes, e um grupo final foi deixado descoberto. Esse design cauteloso permitiu que quaisquer diferenças observadas na liberação de larvas poderiam ser atribuídas aos níveis de luz ao invés da presença da cobertura.
Para monitorar a desova, pesquisadores colocaram potes de coleta com a abertura para baixo sobre cada fragmento de coral. Cada manhã, quando os capuzes eram removidos durante o dia, os potes eram inspecionados para procurar sinais de desova: gametas pequenos, não maiores do que grãos de sal. Os eventos de desova foram classificados como ‘grande’ ou ‘pequeno’ baseado no número de gametas liberados.
Um relógio complexo
Este estudo mostrou que os corais desovaram em duas rodadas: uma em março e uma em abril. Diferente de estudos anteriores, os corais puderam desovar de maneira sincronizada sem a presença do luar (5). Além disso, os corais mantidos na escuridão por pelo menos duas noites consecutivas adiantaram sua desova comparados aos corais controle. Isso indica que períodos de escuridão após o pôr do sol podem atuar como gatilho para desova em algumas espécies de Acropora em vez do luar, sugerindo que este mecanismo é mais difundido do que se pensava anteriormente.

Corais cobertos adiantaram sua desova em relação aos que foram deixados descobertos (1).
Um oceano em mudança, um relógio em mudança?
Embora avanços no entendimento de como as fases da lua e os níveis de escuridão influenciam a desova de corais, os mecanismos precisos permanecem indefinidos. Claramente, a luz é somente uma peça deste quebra-cabeça complexo com interações entre outros fatores, incluindo a temperatura do oceano, complicando o panorama (6). Os humanos contribuem com essa complexidade, com a luz artificial potencialmente impactando a desova dos corais (7); e à medida que as condições oceânicas mudam devido às mudanças climáticas, veremos se os corais conseguem adaptar seu ritmo para sincronizar com as novas pistas ambientais. Pesquisas futuras são essenciais para determinar o quão resilientes estes marcadores do tempo lunar são – e se eles podem se adaptar a um mundo em mudança antes que o tempo se esgote.
1 [Artigo principal] de la Torre Cerro, R. et al. (2025) ‘Evaluating the role of moonlight-darkness dynamics as proximate spawning cues in an Acropora coral’, Coral Reefs. Available at: https://doi.org/10.1007/s00338-025-02618-9.
2 Project Coral (2025) Horniman Museum and Gardens. Available at: https://www.horniman.ac.uk/project/project-coral/ (Accessed: 18 February 2025)
3 Kaiser, T.S. and Neumann, J. (2021) ‘Circalunar clocks—Old experiments for a new era’, BioEssays, 43(8), p. 2100074. Available at: https://doi.org/10.1002/bies.202100074.
4 Gouezo, M. et al. (2020) ‘Multispecific coral spawning events and extended breeding periods on an equatorial reef’, Coral Reefs, 39(4), pp. 1107–1123. Available at: https://doi.org/10.1007/s00338-020-01941-7.
5 Kaniewska, P. et al. (2015) ‘Signaling cascades and the importance of moonlight in coral broadcast mass spawning’, eLife, 4. Available at: https://doi.org/10.7554/elife.09991.
6 Lin, C.-H. and Nozawa, Y. (2017) ‘Variability of spawning time (lunar day) in Acropora versus merulinid corals: a 7-yr record of in situ coral spawning in Taiwan’, Coral Reefs, 36(4), pp. 1269–1278. Available at: https://doi.org/10.1007/s00338-017-1622-5.
7 Davies, T.W. et al. (2023) ‘Global disruption of coral broadcast spawning associated with artificial light at night’, Nature Communications, 14(1), p. 2511. Available at: https://doi.org/10.1038/s41467-023-38070-y.
